"DESENCANTO"

"Desencanto" é um dos poemas que marcam a primeira fase lírica do poeta. Retirado de A Cinza das Horas, livro de 50 composições metrificadas e rimadas, todas elas de superior acabamento formal.

Pretende, o Eu lírico, transmitir o desencanto da vida, arrastando-se numa lenta agonia que se confunde com o próprio acto de escrever. Neste processo de morrer está bem patente o paralelismo entre o sangue quente que goteja do coração na lenta corrida para a morte e a tinta que corre para o papel "em versos de angústia" e desespero. Isto toma uma maior conotação no último verso que serve de conclusão a todo o processo de efemeridade e desencantamento da vida e no qual se justifica o própio título da obra: A Cinza das Horas.

Ao reorganizar, na citada transmutação/transfiguração da obra de arte, a realidade que lhe serviu de pretexto à criação, Bandeira adopta, em A Cinza das Horas, não só a sua idiologia particular, mas também uma série de processos estilístico-formais que são, ainda, alheios ao vanguardismo já em curso na Europa. O perfil ideológico delineado nesta primeira fase é, ainda, o do Simbolismo com alguns laivos de Romantismo.

Quantos aos processos de expressão sublinham-se sobretudo os mandamentos da Ars poetica do Parnasianismo. Somente a partir do segundo livro Carnaval, Bandeira se desinibe de todo o formalismo e artificialidade imposta pela poesia parnasiana, tomando consigo e com o mundo as liberdades próprias da idiologia de vanguarda ditada pelos modernistas.