HISTORIAL

    A vida dos camponeses da Freguesia de Nossa Senhora da Orada, concelho de Borba, fundamentava-se, naquela altura, em duas grandes herdades de lavoura: a Peruzinha e a Azenha Branca.

    A maior parte dos intervenientes na criação  e manutenção deste grupo de Bonecos, pertencia à Herdade da Azenha Branca.

    Muitas vezes, nos serões de Inverno, quando não havia nada para fazer, reuniam-se à volta de uma fogueira.

    António Serafim dos Santos, vulgo Sandes da Orada, tinha uma voz de "cante" e, muitas vezes, ouviam-no cantar o fado e as saias, outras vezes, entre todos, reavivavam as memórias, revivesciam os usos e costumes antigos, contando desde as orações aos rimances (como refere Azinhal Abelho), aos factos e feitos legendários da sua terra. Uma noite, continua o mesmo autor, falava-se de Bonecos. Todos sabiam de cor os textos, mas um dos mais velhos de entre eles recitava a pedido, o "Auto da Criação do Mundo" e o "Diálogo do Sol e da Lua".

              Ainda nas palavras de Azinhal Abelho: “ A época ia chuvosa. Mal ceavam, o assunto era o balha-o-boneco. Então lembraram-se de apresentar no Ano Novo, que estava a chegar, uma paródia daquelas. A ideia foi aceite. A malta da Herdade da Azenha Branca ia apresentar uma noite de bonecos.”  

  Imagem de um grupo de bonecos          

 

    Meteram mãos à obra e eis como tudo aconteceu, contado por António Sandes:

“Foi em 1932. O primeiro que começou a fazer um boneco foi o Zé Bispo. Estavam ao pé o Domingos Cancelino mais o Venâncio Calça que, influenciados, ajudaram. Talhe para aqui, talhe para ali, um fez as pernas, outro os braços e ainda outro o toutiço. Mas não se ajeitavam bem com a cara. Queriam um rosto de gente. Só quem tivesse aprendido a desenhar na escola. Eles não sabiam ler. E chamaram-me porque eu tinha sido aluno do professor Alpalhão. Então pintei os olhos, a boca e o cabelo do boneco. E seguiu-se a tarefa.

            O primeiro Chanca foi feito pelo Tio Chico Bispo, hortelão da herdade e pai do Zé Bispo. Era um modelo de cortiça; mas não serviu porque, ao bailar, as pancadas não estalavam. Repetiu a habilidade, mas mudou de intenções, e fez o Mestre Salas de pau de freixo. Assim, quando o boneco batia com a bengalinha no toutiço do Chanca, já se ouviam as pancadas. E procurei emendar o Chanca, de cortiça. Mas aquilo não tinha emenda. E fiz outro de raiz de freixo verde. Todos talhámos a Serpente, dividida por nacos e mais alguns bonecos de cortiça e de madeira. Os anjos eram cinco. O que dançava no meio tinha o nome de anjo da guarda. Quem o vestiu foi a Bárbara Baltasar, moça muito habilidosa e antiga namorada do Venâncio. A Domingas Ferreira, irmã do Venâncio, vestiu outro e a Maria Joana Rata, agora namorada do Venâncio, compôs o terceiro. A minha rapariga, com quem estou hoje casado, a Maria do Pisão, vestiu o quarto e o quinto foi enfeitado pela Deolinda Chavancas, que namorava o Zé Bispo. Tudo obras de amor. O Mestre Salas e o Padre Chanca tinham mais compostura. Pedimos à senhora Chica Cancelina, que trabalhava em roupas de homem e ela fez-lhe os fatos. A minha prima Maria Salvadora fardou um polícia e a minha mãe, Constantina Pulquéria arranjou outro. A Velha-da-água-benta foi enjorcada pela Madalena Ferreira, mulher do Tio Chico Bispo e mãe do Zé Bispo. Assim se formaram os Bonecos novos da Orada. Continuando a nossa conversa:

            Eu, que já cantava saias, fui nomeado pelo Tio Chico Bispo para ser o Salas. Como o Cartaxo já tinha trabalhado com outros Bonecos, em sociedade com o José Gordancha e o João Orada, que era guitarrista, foi chamado para nos ensinar aquilo que tinha de experiência. O Ricardo Cancelino, que tocava guitarra muito bem, aceitou o convite para nos acompanhar. Estava formada a companhia.

            Os primeiros ensaios que demos foram na casinha dos ganhões, onde só dormiam os solteiros; os últimos foram na casa do Tio João Mau, com a vizinhança toda a assistir. Pedimos depois o casão do João do Montinho e aí foram os espectáculos para toda a gente, no dia de Reis. Fizemos a sessão ajudados com duas moças cantadeiras – a Vicência Picamilho e a Maria Inácia da Estalagem. Os cargos e papéis foram assim distribuídos: Mestre Salas: Sandes; Padre Chanca: Cartaxo; Tocador de guitarra: Ricardo; Porteiro: José Bispo; Domingos e Venâncio balhavam só as figuras. Não havia tambor. Um latão velho serviu para fazer o barulho. Os Bonecos eram poucos e pequeninos, num palco desenhado pelo Cartaxo. Tudo muito pobre, mas ganhámos dinheiro, sendo as entradas pagas a um escudo, para quem não queria balhinho. Os motivos dos balhinhos, para os homens era sempre uma desgarrada; para as mulheres variava um pouco, porque queriam ouvir cantar saias. Assim passámos três serões.

            Na tarde dum Domingo, antes do terceiro espectáculo, estávamos cantando o fado na tasca do Picamilho, quando apareceu o poeta popular Inácio Franco Farrifa, conhecido em todo o Alentejo. Já velhinho e pobre, vivendo quase de esmolas, ficou na nossa Orada para assistir aos Bonecos. Lá dentro, atrás das cortinas, quando falou com a gente disse: - É pena vocês não lidarem com material. Mas, se quiserem, eu tenho uns Bonecos, com que trabalhava antigamente, mais o Jaleca, grande improvisador.

            E acentuando:

            Este rapaz (que era eu) se for puxado a continuar faz-se bom. Tem o mesmo jeito e o aspecto do Jaleca. A obra ainda é pouca. Mas a cantar saias ao desafio de namoro, nunca o Jaleca cantou assim. Se quiserem eu vou a São Tiago e vendo os Bonecos que estão em casa do José Cachatra.

            Logo se resolveu tudo com entusiasmo. Pedimos um carro de parelha ao lavrador José Amante, que emprestou de boa vontade. E mandou o carreiro, que foi o Isidro Cancelino.

            Em São Tiago, o Cartaxo comprou os Bonecos ao Cachatra, sendo o Farrifa visto no negócio. Custou a colecção 100$00.

            Recomeçámos com aqueles Bonecos. Mas o José Bispo e o Domingos saíram da sociedade ficando nós os quatro – Sandes, Cartaxo, Venâncio e Ricardo.

            Eu casei em 1934. O Venâncio também saiu e ficaram os três. A certa altura o Ricardo também não nos podia acompanhar para fora da freguesia, por causa dos pais, que viviam sós. E deixou-nos em 1938. Contratámos o João Magina, mas só um ano. A seguir, acompanhou-nos o Paulino de São Bento. Saiu o Paulino e veio o João Morgado. Saiu o Morgado e veio o José Amaro, até 1967. Todos eram bons guitarristas, acompanhando os Bonecos sempre a preceito, com as músicas que eram de tradição. Só as Saias é que todos os anos eram novas.”

 

         Estas decimas são dedicadas nomiando as peçoas que me acompanharam desde o tempo de a fundação de os bonecos da Orada em 1932.

 

            Mote

Os bonecos da Orada

Voltaram hoje de novo

Agora a sua entrada

E já na casa do povo

           

Para passarmos os seriões

O Venancio Vitorino

José Bispo Dumingos Cancelino

Dando suas opiniões

Francisco Bispo deu instruções

João Mau meteu sua penada

Vamos faser uma titarada

Mãos á obra se meteram

Assim mesmo é que nasceram

Os bonecos da Orada

 

           

Eu como sabia cantar

Para Salas fui nomiado

O Cartaxo convidado

Para os actos nos encinar

O Ricardo para para tocar

E sedio com grande aprovo

São esses nomes que eu louvo

Os que a coleção formamos

Prá terra onde os fundámos

Voltaram hoje de novo

 

           

Seguio o continuado

Percorremos larga campina

Pro José Pequeno e João Magina

Poreles fui acompanhado

Pelo Paulino e o Morgado

José Amaro bom camarada

Eu sempre firme na jornada

Como amador da poesia

E na dita Freguesia

Agora á sua entrada

 

           

Mais alguem os quis comprar

Oferecendo mais dinheiro

Dois felanos do Estrangeiro

Prá Bélgica os queriam levar

Azinhal Abelho os veio salvar

Para faser este renôvo

Tem lugar não fasem estôrvo

Recebeos o Presidente

Seu paradeiro iternamente

E já na casa do Pôvo