A REPRESENTAÇÃO

            Os textos iniciais, principalmente o “Diálogo do Sol e da Lua” e o “Auto da Criação do Mundo”, eram e são muito semelhantes aos apresentados pelos Bonecos de Santo Aleixo.

                        

o Sol

a Lua

            Estes textos, juntamente com outros, funcionavam como uma base que pouco se alterava.

            Cada vez que havia espectáculo, ia alguém apregoar pela aldeia ou pela vila: “Hoje há Bonecos…”

            Alguns textos, em cada espectáculo, eram adaptados, solicitando sempre a participação do público presente. Para isso havia o “ponto”, que indicava aos actores as pessoas conhecidas presentes. A partir dessa indicação, os actores incorporavam no espectáculo referências a este ou àquele. O público entrava no jogo e exigia sempre mais. Para que a assistência tomasse corpo no palco, havia sempre um certo número de bonecos figurantes, que a todo o momento entravam em cena, consoante as exigências e desafios do público. Estes desafios eram, geralmente, aceites e era então o Mestre Salas, a personagem principal de toso o elenco, que iria com mais alguns elementos do grupo representar este desafio e , muitas vezes, cantá-lo à desgarrada.

            “Outra das modalidades de participação do público – segundo a Drª Maria Filipa Almeida, actual Vereadora da Câmara Municipal de Borba- era o pedido feito às personagens para apresentarem um “balhinho”. Era quase sempre um rapaz solteiro quem o fazia, sendo esse gesto uma prova de estima pela namorada. Então, de acordo com as características pessoais dele e dela assim se estabelecia a cantiga ao desafio, acompanhada de baile entre os dois bonecos, sendo um deles o Mestre Salas.

          Tudo aqui era improvisado, tal como nos bailes populares em que rapazes e raparigas cantavam à desgarrada.”

        No final de cada desafio pedido por alguém do público perguntava-se: “Atã posso lá mandar o rapazinho?”; isto é, perguntava-se a quem tinha feito o pedido se estava disposto a pagar. Se a resposta fosse afirmativa, então ia alguém do grupo com o “rapazinho”, que era uma lata com tampa de cortiça que tinha um buraco ao meio para introduzir o dinheiro. Se, por outro lado, a resposta fosse negativa, então o Mestre Salas encarregar-se-ia de que essa pessoa fosse completamente desmoralizada, ridicularizada e envergonhada na frente de todos.

        Vemos assim que o espectáculo era em grande parte feito pelo intercâmbio entre actores/bonecos e público. A este propósito poder-se-á citar a professora Ana Paula Guimarães num artigo por ela escrito no Jornal de Letras que tinha por título “Num Auto da Paixão”, porque o que aqui é descrito se assemelha em muito ao que é provocado nas representações dos Bonecos – Comunhão público+actores:

            “Acontece-nos, hoje, pensar (ao prever o espectáculo a que nos propomos a assistir) em valores como os de novidade e originalidade, cansando-nos, desde logo, aquilo que já vimos. Ora, o teatro feito assim como vimos nesse dia, nasce precisamente da repetição. O lúdico não advém do novo, mas do conhecimento. Conhecendo-se exactamente as regras, os dados, as soluções, o resultado e a alegria de ver reside na alegria de reconhecer.(...) Em vez da diferença, da valorização do inesperado, sabe-se de cor, e detectam-se as falhas quando algo «não está como pertence»”.