Nas manhãs de Verão verdes e doiradas, as crianças saíam
muito cedo, com um cesto de vime enfiado no braço esquerdo iam colher flores, morangos, amoras,
cogumelos. Teciam grinaldas que poisavam nos cabelos ou que punham a flutuar no
rio. E dançavam e cantavam nas relvas finas sob a sombra luminosa e trémula dos
carvalhos e das tílias. Passado o Verão o vento de
Outubro despia os arvoredos, voltava o Inverno, e de novo a floresta ficava
imóvel e muda presa em seus vestidos de neve e gelo.
Páginas 5, 6, 7, 8.
Nas primeiras páginas da obra, Sophia situa a acção no espaço – Dinamarca – mais especificamente na floresta, onde se situa a casa do Cavaleiro, personagem principal. A floresta vai constituir um espaço primordial para a acção, pois é aí na parte final que o herói vai enfrentar os últimos obstáculos e atingir o seu objectivo – estar com a família na noite de Natal. A floresto, símbolo de angústia, de opressão vai ser representada por uma natureza agreste e frígida do Inverno, que vai ser ultrapassada pelo aparecimento do pinheiro, símbolo de força e de vida.
Convém
referir que a floresta do Cavaleiro passa por vários estádios da vida,
associados às quatro estações. Estações estas que também serviram de mote ao
compositor António Vivaldi, que, como outros compositores procurou evocar a
Natureza através da música.
Na
4ª parte das Quatro Estações de Vivaldi - o Inverno, os primeiros
acordes da orquestra baseados em acordes dissonantes mostram a queda da neve e
o frio do Inverno, que são descritos pela Sophia nos dois primeiros parágrafos
da obra. A música, através do violino, em escalas descendentes e arpejos,
anunciam a neve que chega e que, segundo o texto, vai cobrir a terra e os
telhados, deixando apenas as cores branco para a dita neve e verde dos
pinheiros que permanecem vivos no meio de uma Natureza silenciosa e muda. A
orquestra acompanha o violonista marcando a harmonia e o ritmo, imitando o
vento frio e arrepiante que gela os rios, afasta os pássaros ávidos de calor e
sol e desnuda as árvores, apenas conservando os majestosos pinheiros com as
suas agulhas duras e brilhantes. Essa harmonia e ritmo, no texto, revelam-se
através do uso do adjectivo, muitas das vezes empregue num recurso estilístico
de dupla adjectivação, e do advérbio
com valor locativo e de exclusividade. O vento sopra nas palavras utilizadas
por Sophia quando descreve os Invernos, nas primeiras linhas, com uma
aliteração em “s”, denunciando o som do vento sibilante e agreste nesta estação
do ano. Para além disto a autora conjuga e faz tocar todos os sentidos numa
sinestesia no final do primeiro parágrafo: “grande silêncio imóvel e branco”.
A
Primavera em Vivaldi inicia-se como alegre melodia interpretada pelos violinos
mostrando o despertar, o renascer da Natureza. Também Sophia, no texto,
apelando às sensações, evidencia uma natureza que se cobre de folhas leves,
frágeis, a estremecer à menor aragem. Nas Quatro Estações, 1ª parte – a Primavera
– notamos uma ascensão progressiva da luminosidade para descrever o nascimento
de uma natureza transbordante de vida, daí que o ambiente esteja inundado por
luz e cor; aspectos revelados no texto em análise através da evolução da paleta
de cores, que deixa de ser baça, cinzenta para rejubilar em cores vivas e
alegres como o vermelho e o verde vivo. Este crescendo de vida, visível no
degelo dos rios, na floresta a encher-se de frutos, no regresso dos pássaros,
no ar povoado de vozes, nas abelhas domina inteiramente o terceiro parágrafo da
obra.
O
Verão já aparece com outro ritmo no compositor, ou seja, com breves
motivos realizados pela orquestra separados entre si por silêncios, que parecem
evocar a respiração lenta e profunda, não esquecendo as escalas descendentes
nos violinos, continuadas pelas violas e baixos, e repetidas em tom mais alto
evocando um ambiente relaxante e silencioso. Estas sensações são aproveitadas
no texto através da meticulosa selecção de cores quentes “manhãs de Verão
verdes e douradas” e “morangos, amoras”. A escritora acrescenta um ambiente
festivo através da dança e do canto que Vivaldi prefere tocar a solo no trecho
do lamento do jovem camponês. Todavia, entre eles, permanece o desejo de
atribuir alguma inocência da juventude a esta estação, focando no texto as
crianças e na peça musical o jovem.
Na
3ª parte – o Outono -, Vivaldi inicia com a orquestra a interpretar uma
bela e simples melodia de carácter dançante. Da mesma forma, podemos visualizar
esta dança através do vento de Outubro que despe freneticamente os arvoredos
para, de novo, a Natureza cair num adormecimento profundo. A Natureza fica com
as suas cores esbatidas, mergulhando na hibernação da terra.
Tal
como Vivaldi, assim Sophia desejou mostrar o Ciclo da Natureza que será
regulador do tempo da acção principal do Cavaleiro da Dinamarca, tempo
este também associado aos lugares primordiais da vida do Cavaleiro.